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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Samba-enredo é um grande enunciado político, defende sociólogo

O samba-enredo, mais do que um mero espetáculo carnavalesco, funcionou como um poderoso “enunciado político”, especialmente durante os anos da ditadura militar no Brasil (1964-1985). A afirmação é do sociólogo Rodrigo Antonio Reduzino, autor da tese de doutorado “Enredos da Liberdade: o grito das Escolas de Samba pela Democracia”, defendida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A pesquisa de Reduzino analisou os enredos das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro na década de 1980, período que abrange a campanha pelas Diretas Já e a eleição presidencial de 1989. Ele argumenta que a criação desses temas envolvia um processo comunitário de meses, tornando as críticas sociais e os gritos por liberdade veiculados nos sambas atos políticos significativos em um contexto de repressão.

O apagamento da cultura negra e a repressão

Reduzino destaca que, apesar da visibilidade da resistência na Música Popular Brasileira (MPB) à ditadura, o papel das escolas de samba foi frequentemente marginalizado. Ele atribui esse apagamento a um racismo estrutural na sociedade brasileira, que historicamente busca silenciar e diminuir a intelectualidade e a humanidade da população negra.

“A escola de samba, por meio do samba-enredo, também pode falar e provocar. O samba-enredo é um grande enunciado político”, enfatiza o sociólogo, ressaltando que a repressão contra as escolas de samba intensificava a violência do Estado contra as camadas populares, a população negra e periférica.

O código de vadiagem e a associação com a criminalidade

O sociólogo relembra como o Código de Vadiagem (Decreto-Lei 3.688/1941) era utilizado pelas forças repressoras para associar pessoas negras a instrumentos musicais e à vadiagem, criminalizando manifestações culturais. Além disso, Reduzino aborda a associação, muitas vezes forjada, entre escolas de samba e o jogo do bicho, evidenciando como essa ligação serviu para estigmatizar as agremiações.

“Esses bicheiros estão dialogando com o poder público e circulam no espaço do poder público”, aponta Reduzino, questionando a responsabilização exclusiva das escolas de samba por essa relação.

O mito da democracia racial e a memória oficial

A pesquisa também desmistifica a ideia de uma “democracia racial” no Brasil, que, segundo Reduzino, é um pilar da estrutura racista ao negar realidades como a alta mortalidade de jovens negros e a violência obstétrica contra mulheres negras. Ele revela que figuras importantes na discussão sobre relações raciais, como Lélia González e Clóvis Moura, foram fichadas pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) por criticarem essa noção.

Reduzino rebate a crítica de que os enredos de carnaval do passado teriam contribuído para a alienação histórica ao se basearem na historiografia oficial. Para ele, essa visão ignora o papel da elite acadêmica na construção da memória oficial e o investimento estatal nessa narrativa. Ele argumenta que, na década de 1970, apenas uma pequena parcela dos enredos apresentava um tom ufanista, desconstruindo a ideia de que as escolas de samba eram majoritariamente adesistas à ditadura.

O trabalho de Rodrigo Reduzino inspirou o documentário “Enredos da Liberdade”, disponível em cinco episódios no Globoplay.

Com informações da Agência Brasil