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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Besa Me Mucho celebra união latino-americana nas ladeiras do Morro da Providência

O bloco Besa Me Mucho tomou as ladeiras do Morro da Providência, no centro do Rio, neste domingo (8), com um vibrante cortejo que celebrou a diversidade da música latino-americana, os ritmos brasileiros e uma forte mensagem de integração continental. A festa começou na escadaria da Rua Costa Barros, no encontro com a Ladeira do Livramento, reunindo uma multidão de moradores, músicos imigrantes e foliões de diversas partes da cidade.

Resistência cultural e política

Nascido da união de coletivos com forte atuação na região, como o Cortejinho RJ, originário da própria Providência, o Besa Me Mucho reforça o poder da ocupação cultural das ruas como um ato político. “A intensidade de fazer música latina nas vielas da Pequena África é resistência”, afirmam os organizadores, ressaltando a conexão histórica do bloco com a primeira favela do Brasil.

Andrés Martin, um espanhol de 21 anos em seu primeiro carnaval carioca, vê no bloco um símbolo de liberdade. “Todo mundo é livre para fazer o que quiser. O carnaval e a cultura latino-americana representam isso”, declarou. Ele também aproveitou a ocasião para refletir sobre as políticas migratórias, comentando a situação dos imigrantes, especialmente crianças.

A bióloga venezuelana Salomé, moradora do Brasil há sete anos e meio e integrante da banda do Besa Me Mucho, destaca o caráter político do carnaval de rua. “O carnaval é um movimento de resistência, de luta, de ocupar espaços de vida”, disse. Para ela, a proposta do bloco dialoga diretamente com a ideia de pertencimento latino-americano: “O Brasil é a América Latina. Não entendo essa separação. As fronteiras são humanas, estão na nossa cabeça. Somos habitantes do planeta”.

Salomé exalta o Rio de Janeiro pela forma como a rua pertence às pessoas. “É onde acontece a festa, o encontro. Temos que continuar ocupando esse espaço sempre”, completou.

Conexão continental e identidade

André Videira de Figueiredo, professor de sociologia e músico do bloco, enfatiza que o caráter político do Besa Me Mucho é intrínseco à sua proposta musical. “É um bloco de música latino-americana, e isso inclui a música brasileira. Entendemos que fazemos parte desse grande aglomerado político que é a América Latina”, explicou.

Ele acrescenta que o bloco, majoritariamente formado por imigrantes, assume uma responsabilidade maior em momentos de visibilidade como o carnaval. “Falar de uma América Latina livre, de uma ideia de América anterior à América do Norte, é uma tarefa que se impõe”, afirmou.

Felipe Eugênio Santos e Silva, editor e frequentador antigo do bloco, acredita que o Besa Me Mucho ajuda a desmistificar a ideia de que o Brasil estaria isolado do continente. “Existe uma ideia muito ruim de que o Brasil paira acima da América Latina. Isso é um erro imenso. O bloco ajuda a conectar a gente com a cultura dos nossos hermanos, com as músicas e com os modos de existir”, avaliou.

Para ele, a resistência cultural promovida pelo bloco também fomenta a consciência política. “É carnaval, é festa, mas cria uma identidade entre as pessoas. É uma antessala que nos politiza”, concluiu.

Michael Pinheiro, empresário carioca, também ressalta o papel político do carnaval de rua. “O carnaval é o Brasil acontecendo de forma muito objetiva. Mostra para o mundo quem é o nosso povo”, disse, classificando a manifestação como política “de ponta a ponta”.

O sociólogo Rodrigo Freitas vê o desfile na Providência como um reforço da identidade latino-americana. “É um ato de resistência. Um bloco que acontece na ladeira conecta a gente com as ladeiras da América Latina e nos identifica como um povo que precisa resistir ao imperialismo”, afirmou. Ele acredita que iniciativas como o Besa Me Mucho são fundamentais para que o Brasil se reconheça como parte do continente. “Somos latinos. Um bloco desses atualiza essa consciência”, acrescentou.

Com informações da Agência Brasil