
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) tem promovido uma imersão de verão desde 2020, com o objetivo de inspirar estudantes do ensino médio a seguirem carreiras científicas. A iniciativa, alinhada ao Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência, busca combater a sub-representação feminina em áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), historicamente dominadas por homens.
Raíssa Cristine de Medeiros Ferreira, de 17 anos, participou pela primeira vez em 2025 e repetiu a experiência este ano, levando consigo a amiga Beatriz Antônio da Silva. Ambas são estudantes de um instituto federal e foram incentivadas a buscar a ciência por uma professora de física que desenvolve projetos para estimular a entrada de meninas negras na área.
Beatriz relata a influência de sua professora: “Ela é uma boa contadora de histórias. E ela sempre falava como foi difícil, porque ela era uma das únicas mulheres na sala da faculdade, e foi negligenciada e sempre sofreu muito preconceito. Então, ela quer abrir portas para a gente”.
Beatriz Duqueviz, analista de gestão em saúde pública e integrante da coordenação do Programa Mulheres e Meninas na Ciência da Fiocruz, destaca a importância de mulheres ocuparem esses espaços. “A Fiocruz é uma instituição centenária, e só se pensou nesse programa na gestão da Nísia Trindade. Então, a importância de mulheres ocuparem esse espaço é pela diversidade, mas também pela sensibilidade e pela luta.” O programa atua em três frentes: reconhecimento e valorização de cientistas mulheres, pesquisas sobre gênero e estímulo ao interesse pela ciência entre meninas, que, segundo ela, são desestimuladas desde a infância e, quando adultas, enfrentam a sobrecarga de trabalhos domésticos.
Três dias de imersão e descobertas
Nesta edição, 150 alunas de diversas regiões da Região Metropolitana do Rio de Janeiro passaram três dias imersas no ambiente científico da Fiocruz, conhecendo o trabalho de pesquisadoras de 13 unidades da fundação.
Duane de Souza, 17 anos, moradora de Bangu, soube da seleção pelas redes sociais e já tem certeza de que quer cursar biologia. “Eu já sei que quero fazer biologia. Mas a biologia abre portas para diversas coisas, então eu pensei que aqui eu poderia ter uma luz de que área seguir. E realmente eu tive uma luz. Antes, eu achava que fazer pesquisa era uma coisa muito complicada, mas aqui eu percebi que não é exatamente assim”, conta.
Beatriz Duqueviz explica que a programação é desenhada para desmistificar a ciência. “Você não precisa nascer um gênio para ser cientista. O que você precisa é ter curiosidade e disciplina para buscar respostas. A gente quer que essas meninas tenham uma compreensão ampliada da ciência, para estimular que elas busquem carreiras científicas.” As estudantes visitam laboratórios, mas também conhecem espaços como o Laboratório de Conservação Preventiva e a redação da Revista Cadernos de Saúde Pública, mostrando a diversidade de atuação científica.
Luciana Dias de Lima, co-editora chefe da revista, reforça que o trabalho científico é frequentemente coletivo e multidisciplinar. Ela também aponta os desafios para mulheres em posições de liderança: “Alcançar postos mais altos na carreira ainda é um desafio. Principalmente porque nós, mulheres, enfrentamos a necessidade de atuar em outras áreas. A gente sempre tem que compartilhar o horário de trabalho, com várias outras atribuições, como cuidado com a família. Fora os estereótipos de qual é o ‘nosso lugar'”.
Para Sulamita do Nascimento Morais, 17 anos, estudante de uma escola estadual no Méier e bolsista de iniciação científica, o caminho está claro. “Hoje, eu sei que eu quero estudar ciência da computação, mas antes eu nem sabia sobre tecnologia… Até porque, infelizmente, na nossa sociedade, ainda tem esse tabu de que tecnologia é mais coisa de menino. Então, através desses projetos e da imersão, eu pude ver que dá, sim, pra você seguir esses trabalhos, se impor e ter voz sendo mulher”.
Com informações da Agência Brasil


