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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Jovens lançam selo independente para driblar dificuldades do mercado musical

Diante da complexidade e das barreiras encontradas no mercado musical tradicional, um grupo de jovens talentos decidiu criar sua própria via de expressão e crescimento. O selo independente AlterEgo, fundado no Rio de Janeiro, surge como uma resposta à dificuldade de inserção de novas bandas e artistas, oferecendo uma plataforma colaborativa e autogerida.

A iniciativa partiu de Victor Basto, guitarrista e vocalista, e João Mendonça, baterista, ambos formados em produção musical. Integrantes da banda Quedalivre, eles vivenciaram em primeira mão a frustração de ter material musical rejeitado por selos estabelecidos, muitas vezes sem sequer receber uma resposta.

A origem do AlterEgo

“Com a banda, fomos descobrindo as deficiências que as outras bandas também tinham e acabou que a gente juntou o nosso conhecimento técnico com a questão de produção executiva para bandas mesmo. Juntando também com técnicos de outras áreas, surgiu o coletivo”, explica Basto à Agência Brasil. A ideia evoluiu de uma produtora de áudio para um selo fonográfico, que gerencia, produz, promove e distribui o trabalho de artistas.

O músico relembra a decepção com a falta de retorno de selos tradicionais: “Mas acabou que foi a melhor coisa que aconteceu, porque a gente teve que criar o nosso próprio selo e acabou sendo perfeito, porque tem todo mundo que a gente já conhece, com quem a gente já trabalha junto, bandas que não teriam espaço se não fosse a gente chegando com o novo selo”.

Lançamento e estrutura

O selo AlterEgo opera efetivamente desde outubro de 2025, com seu lançamento oficial ocorrendo em um festival homônimo em fevereiro, no Rio de Janeiro. O evento também marcou o pré-lançamento do álbum “Seres Urbanos”, da banda Quedalivre. Atualmente, o selo conta com uma equipe técnica de 22 pessoas, com idades entre 21 e 25 anos, abrangendo diversas áreas como direção executiva, produção fonográfica, eventos, design, fotografia, audiovisual e contabilidade.

A ambição do AlterEgo já reuniu mais de 25 bandas de diferentes estados brasileiros, demonstrando o alcance e o potencial da iniciativa.

O cenário independente

O AlterEgo se insere em um contexto global de crescimento dos selos independentes. Uma pesquisa internacional da MIDiA Research revelou que, em 2023, as entidades independentes (indies) detiveram 46,7% do mercado mundial de música, movimentando US$ 14,3 bilhões. No Brasil, a União Brasileira de Compositores aponta que a produção independente enfrenta desafios como problemas com o streaming, a dificuldade de divulgação em um mercado saturado e a concentração de receitas.

Desafios do streaming

Apesar de o streaming ser a principal fonte de receita para gravadoras independentes, com o Spotify liderando, os desafios são evidentes. Segundo a pesquisa “Estado da Economia da Música Independente”, 87% dos selos independentes acreditam que está cada vez mais difícil destacar seus artistas, e 78% enfrentam dificuldades em manter o engajamento dos fãs.

Um ecossistema autogerido

O AlterEgo se define como um ecossistema cultural autogerido, onde a filosofia é o “faça você mesmo”. “Basicamente, quem compõe o selo internamente são várias pessoas da nossa idade, entre 21 a 25 anos mais ou menos. Todo mundo universitário, da área da economia criativa mesmo”, detalha Basto.

O selo se posiciona como uma plataforma de articulação para uma geração que produz sua própria música, à margem dos modelos convencionais. Para Victor Basto, fazer música transcende a expressão artística, tornando-se um projeto de trabalho coletivo. “Está todo mundo envolvido. Não é sobre as próprias bandas. Tem toda uma estrutura, pessoas que já trabalhavam juntas, que já participavam mas que, agora, estão engajadas realmente em fazer o cenário crescer, para poder todo mundo viver do que a gente ama mesmo. Não é uma coisa individual de forma nenhuma”.

A mensagem principal do AlterEgo é de que é possível criar e prosperar na música sem a necessidade de grandes investimentos. “Eu acho que até para bandas novas que já vieram falar conosco e que começaram por causa da gente, é muito importante que possamos mostrar que dá para fazer, sem ser nascido no berço de ouro da música. Sem aqueles investimentos vultosos dá para fazer coisa boa, sim”, conclui Basto.

Com informações da Agência Brasil