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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Rec-Beat celebra 30 anos de resistência cultural e inovação musical

Considerado um dos principais polos de resistência cultural e vitrine para a música independente e multicultural no Brasil, o Festival Rec-Beat comemora 30 anos de existência, mantendo a vitalidade e a inquietação que o marcaram desde sua fundação em 1995 por Antonio Gutierrez, o Gutie.

Ao longo de sua trajetória, o Rec-Beat se consolidou como um espaço de diversidade, onde diferentes públicos, estéticas e gerações se encontram durante o Carnaval pernambucano. O festival, que ocorreu de 14 a 17 de fevereiro no Cais da Alfândega, no Recife, transformou o local em um território de experimentação, unindo tradições e vanguardas musicais.

Novidades e tradição nos 30 anos do Rec-Beat

Para esta edição comemorativa, o festival buscou explorar a memória e a história do evento, além de trazer novidades. Uma delas foi a concretização de um antigo desejo de Gutie: a criação de um selo voltado para a música eletrônica, chamado Moritz. A primeira noite do festival contou com uma programação focada em DJs nacionais, locais e internacionais, com a perspectiva de Moritz se tornar um evento autônomo no futuro.

Gutie ressalta que a essência do festival de buscar relevância em todas as regiões do Brasil, com um olhar atento para a América Latina e a África, foi mantida. A programação desta edição contou com artistas como Nanda Tsunami, AJULLIACOSTA, Carlos do Complexo, Jadsa, Djonga, Johnny Hooker, Chico Chico, Josyara e Felipe Cordeiro, que celebrou 20 anos de carreira.

As origens do Rec-Beat: do jornalismo à resistência cultural

O Rec-Beat nasceu no efervescente cenário dos anos 90 em Recife, impulsionado pelo movimento Manguebeat. Gutie, então jornalista, iniciou o festival como uma festa em um antigo casarão no centro histórico. A primeira edição, considerada a “edição zero”, ocorreu em 1993, reunindo 12 bandas na casa de shows Aeroanta, em São Paulo, com grande repercussão.

A ideia de realizar o festival durante o Carnaval surgiu da percepção de Gutie sobre a curiosidade do público em conhecer o som que estava ganhando destaque em Pernambuco. Inicialmente um minifestival no Centro Luiz Freire, o Rec-Beat cresceu e se mudou para o sítio histórico do Recife, ampliando seu alcance para o cenário nacional e internacional.

Um olhar periférico e a fusão de culturas

Gutie destaca o olhar periférico do festival, que se interessa pelo que acontece nas margens, não apenas no Brasil, mas em regiões do Sul global. Ele acredita que os movimentos periféricos são determinantes para a construção de movimentos culturais universais.

A diversidade é um pilar do Rec-Beat, que mescla tradição com novas tendências, incluindo a música eletrônica ao lado de manifestações como afoxé e maracatu. Essa pluralidade reflete a própria essência da cultura brasileira.

O Rec-Beat e o Carnaval: uma relação de soma e influência

A realização do festival durante o Carnaval, que para alguns poderia parecer inusitada, se mostra como uma soma à diversidade da festa. Gutie afirma que o Rec-Beat não é anti-Carnaval, mas sim uma contribuição para a multiplicidade de propostas que a celebração oferece. Ao longo do tempo, o festival passou a influenciar outros eventos e até mesmo o próprio Carnaval, com palcos que emulam seu conceito.

O público do Rec-Beat se renova constantemente, atraindo jovens que se integram à folia. O festival, gratuito, busca assegurar seu futuro ao dialogar com novas gerações, apresentando a elas um leque de opções para além da mídia massiva e dos algoritmos.

Desafios e resiliência da cena independente

Gutie acompanha de perto a cena de festivais independentes e reconhece as dificuldades enfrentadas, especialmente pela concentração de recursos em grandes eventos midiáticos. A falta de investimento em patrocínio fora do eixo Sudeste é um obstáculo significativo para festivais no Nordeste.

Apesar dos perrengues, como o vivido em 2015 com a crise econômica, o Rec-Beat se mantém firme, com uma rede de apoiadores que inclui a Prefeitura do Recife, o Governo do Estado, leis de incentivo e instituições internacionais. O orgulho, segundo Gutie, é nunca ter deixado de acontecer, exceto durante a pandemia.

O novo sempre vem: a missão do Rec-Beat

Olhando para os 30 anos, Gutie celebra a capacidade do festival de surpreender e causar impacto, apresentando novas opções musicais que podem ser transformadoras. A missão do Rec-Beat, e de festivais independentes, é mostrar que existe vida além do óbvio, incentivando as pessoas a abraçarem o novo sem medo.

Além do Rec-Beat, a produtora de Gutie também organiza o festival de cinema de animação e um novo festival de música percussiva, com planos de expandir ambos e o próprio Rec-Beat para outras cidades, como parte das comemorações de aniversário.

Com informações da Agência Brasil