32.3 C
Manaus
quinta-feira, 10 de setembro de 2026

“Eu era mais uma vítima”, diz mulher que descobriu ter sido infectada com HIV pelo namorado

Uma mulher identificada pelo nome fictício de Maria descobriu que havia sido infectada intencionalmente com o vírus HIV pelo então namorado, o dentista Jean José Dunga, de 41 anos, em Porto Velho, Rondônia. Antes do diagnóstico, ela mantinha uma rotina ativa de exercícios físicos, mas passou a apresentar febre, dores intensas, infecções recorrentes e um cansaço que não conseguia explicar.

“Com certeza posso afirmar que foi o momento mais triste e mais difícil da minha vida”, relatou a vítima.

Para preservar sua identidade e evitar exposição da família, Maria será identificada por nome fictício. A identidade de Jean é real.

Os sintomas começaram pouco tempo depois do início do relacionamento. Segundo Maria, o homem chegou a oferecer medicamentos e sugeriu que ela não contasse à família que a infecção persistia.

“O Jean falou que ele poderia me prescrever o antibiótico, que não precisava contar pra ninguém da minha família que a infecção não havia passado, mas isso me acendeu uma pequena luz”, contou.

Com o agravamento do quadro, Maria decidiu realizar exames para descartar uma infecção sexualmente transmissível. O resultado apontou HIV positivo.

Na época, ela ainda desconhecia que Jean já era investigado pelo Ministério Público de Rondônia (MP-RO). O órgão havia recebido relatos de outras mulheres e apontou que o dentista teria transmitido o vírus de forma intencional a pelo menos quatro vítimas.

Maria descobriu a ligação com o investigado ao procurar atendimento com uma infectologista. Segundo ela, o nome do parceiro coincidiu com o de um dos suspeitos investigados.

“Ao me perguntarem o nome do meu parceiro, correspondia ao do suspeito; se tratava da mesma pessoa. Eu era mais uma vítima do Jean”, afirmou.

A denúncia do MP-RO aponta que Jean teria conhecimento de que era portador do HIV havia cerca de dez anos e que não teria aderido ao tratamento antirretroviral. A acusação sustenta que essa conduta pode ter contribuído para a transmissão do vírus a mulheres com quem ele se relacionava.

O tratamento adequado do HIV permite que a carga viral fique indetectável. Nessa condição, a transmissão sexual do vírus não ocorre.

DENÚNCIA E CONDENAÇÃO

Maria procurou o Núcleo de Atendimento às Vítimas (Navit), do MP-RO, em 28 de maio. Segundo ela, mesmo diante do sofrimento causado pelo diagnóstico, decidiu denunciar o ex-namorado.

“Estava doendo, mas eu iria fazer o que tivesse que fazer. Ele poderia enfrentar a impunidade de outras pessoas e de outras vítimas, mas da minha parte jamais ele terá impunidade”, declarou.

Jean foi preso em 10 de junho. Conforme o MP-RO, havia indícios de que ele continuava se relacionando com outras mulheres mesmo respondendo à primeira ação penal.

“Terminei o namoro com ele no dia 30 de abril e a prisão ocorreu somente em 10 de junho. Nesse lapso temporal, ele foi visto saindo com duas moças diferentes. Não posso afirmar que eram namoradas, mas infelizmente ele teve tempo suficiente pra fazer novas vítimas”, afirmou Maria.

Mais de quatro mulheres foram acolhidas pelo Navit. De acordo com o MP-RO, os relatos incluem medo, culpa, vergonha, ansiedade, sofrimento emocional e receio de exposição em razão do diagnóstico.

O Ministério Público denunciou Jean por lesão corporal gravíssima e perigo de contágio de doença grave. Em dois casos, ele também responde por acusações de estupro.

Em 24 de agosto, Jean foi condenado a cinco anos de prisão em regime semiaberto e ao pagamento de R$ 50 mil de indenização a Maria. Ele passou a cumprir a pena em uma colônia penal de Porto Velho e pode recorrer da decisão.

Outros dois processos envolvendo acusações semelhantes continuam em tramitação.

Nesta semana, o MP-RO solicitou uma nova prisão preventiva em regime fechado, sob a justificativa de risco de novas vítimas. O pedido foi aceito pela Justiça nesta quarta-feira (9), e Jean voltou a ser preso.

Antes da condenação, a defesa declarou ao g1 que Jean fazia tratamento antirretroviral e acreditava que não havia risco de transmissão sexual do HIV. Depois da sentença, o advogado foi procurado novamente, mas preferiu não se manifestar.

PRECONCEITO

Para a infectologista Mariana Vasconcelos, o preconceito e a desinformação ainda representam grandes obstáculos para pessoas que vivem com HIV.

Maria afirma que o medo da exposição foi um dos motivos para preservar sua identidade.

“Não posso me identificar sem sofrer prejuízos ou expor familiares a prejuízo social. Infelizmente, a sociedade ainda cobra um preço para esse tipo de contágio, ainda há um grande tabu social e as pessoas são muito cruéis com comentários às vítimas”, disse.

Segundo a médica, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado permitem que pessoas vivendo com HIV tenham qualidade e expectativa de vida semelhantes às da população em geral.

“Hoje em dia, o tratamento base no Brasil é feito com apenas dois comprimidos diários, que praticamente não têm efeitos colaterais. O paciente que faz o diagnóstico de forma precoce e toma a medicação direitinho tem uma expectativa de vida que se assemelha à da população geral”, explicou.