domingo, 27, setembro, 2020
Sem assinatura de médicos, Saúde libera cloroquina a todos com covid-19
Ministro da Saúde interino, o general Eduardo Pazuello, autorizou prescrição do medicamento, que não tem eficácia comprovada, para todas as fases da doença

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Brasil – Diante da recusa de dois ministros da Saúde, coube ao general Eduardo Pazuello, que assumiu a pasta de forma interina, liberar a cloroquina para todos os pacientes de covid-19. 

O remédio, que não tem eficácia comprovada e pode causar severos efeitos colaterais, é tema do novo protocolo divulgado nesta quarta-feira, 20, pelo Ministério da Saúde.

Diferentemente do protocolo de abril, quando a pasta recomendou o uso apenas em pacientes graves, nesse novo documento não há assinatura de nenhum médico, apenas uma bibliografia de referência de pesquisas científicas.

O documento recomenda a prescrição do medicamento desde os primeiros sinais apresentados. Estabelece, ainda, quais as doses que devem ser indicadas aos pacientes com o novo coronavírus, desde o 1º até o 14º dia de sintomas da doença.

O protocolo inclui também que o paciente declare conhecer que o tratamento pode causar efeitos colaterais que podem levar à “disfunção grave de órgãos, ao prolongamento da internação, à incapacidade temporária ou permanente, e até ao óbito.”

Em caso de indicação do tratamento para crianças, o protocolo afirma que o médico dê “prioridade ao uso de hidroxicloroquina pelo risco de toxicidade da cloroquina”. Orienta também que a prescrição deve ser usada com “precaução em portadores de doenças cardíacas, hepáticas ou renais, hematoporfiria e doenças mentais”.

“Apesar de serem medicações utilizadas em diversos protocolos e de possuírem atividade in vitro demonstrada contra o coronavírus, ainda não há meta-análises de ensaios clínicos multicêntricos, controlados, cegos e randomizados que comprovem o beneficio inequívoco dessas medicações para o tratamento da COVID-19. Assim, fica a critério do médico a prescrição, sendo necessária também a vontade declarada do paciente”, diz a Saúde no documento.

Pressão política

O novo protocolo é fruto de pressão do próprio presidente Jair Bolsonaro, que desde o início da doença insiste no remédio o na esteira do presidente americano Donald Trump, que nesta semana afirmou estar tomando o remédio sem ter sido sequer diagnosticado.

A demora em fazer uma recomendação mais ampla foi uma das causas para saída do ex-ministro Nelson Teich na semana passada após menos de um mês no cargo.

Nesta manhã, Bolsonaro afirmou pelas redes sociais que o novo direcionamento é uma “esperança” e lamentou as mortes pela covid-19, que ontem, pela primeira vez, superaram as 1.000 vítimas diárias.

“Dias difíceis. Lamentamos os que nos deixaram. Hoje teremos novo protocolo sobre a cloroquina pelo Ministério da Saúde. Uma esperança, como relatado por muitos que a usaram. Que Deus abençoe o nosso Brasil”, escreveu Bolsonaro.

O remédio não tem eficácia comprovada. Nesta semana, três sociedades médicas ligadas diretamente às áreas de tratamento da covid-19 — Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB),  Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) — assinaram um novo protocolo para não recomendar a cloroquina.

O documento foi produzido por 27 especialistas e é chamado de “Diretrizes para o Tratamento Farmacológico da COVID-19. Consenso da Associação de Medicina Intensiva Brasileira, da Sociedade Brasileira de Infectologia e da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia”.

“Não há indicação de uso de rotina de hidroxicloroquina, cloroquina, azitromicina, lopinavir/ritonavir, corticosteroides ou tocilizumabe [anticorpo que bloqueia a ação de uma proteína responsável por causar inflamação crônica] no tratamento da covid-19”, diz o documento.

Com informações de Estado de São Paulo

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