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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Calango Careta arrasta multidão em Brasília com arte, música e celebração do Cerrado

A Asa Norte de Brasília foi tomada pela alegria e pela criatividade do bloco de Carnaval Calango Careta nesta terça-feira (17). Uma imponente alegoria de um calango gigante, nas cores verde, amarelo e vermelho, liderou um cortejo vibrante que celebrou a cultura popular e a identidade do Cerrado, atraindo moradores e visitantes para um “carnaval de vizinhança” único.

Diferente dos grandes eventos concentrados, o Calango Careta optou por serpentear pelas ruas ao lado de prédios residenciais, promovendo a coletividade. A iniciativa, que desde 2015 marca presença no carnaval brasiliense, busca inspiração em modelos como o bloco Olindense “Eu Acho é Pouco”, com suas alegorias articuladas em bambu.

Mensagem de preservação e arte circense

O calango gigante não veio sozinho. Ao seu lado, um boneco de saruê, representando um animal frequentemente hostilizado por sua semelhança com roedores, reforça a mensagem de preservação do bioma. Gabriel Ballarini, educador social e bonequeiro voluntário, expressou orgulho em dar vida à alegoria, apesar do peso e do esforço físico.

A festa atraiu famílias como a de Ana Bastos, analista de sistemas que trouxe a filha para curtir a folia. “Os bloquinhos são uma delícia, há animação e tranquilidade”, comentou, comparando a experiência com o carnaval de sua terra natal, Recife.

A estética do Calango Careta é um espetáculo à parte, misturando cultura popular com toques psicodélicos. Artistas com grandes asas, pernas de pau, palhaços e acrobatas mascarados compõem a paisagem, guiando o público em um desfile lúdico e colorido. Vanessa Cândido Rezende, apoiadora do bloco, exemplifica essa alegria com seu regador de glitter, que “rega um jardim de glitter” entre os foliões.

Cinema e referências culturais no asfalto

Este ano, o bloco também prestou homenagem a produções cinematográficas brasileiras. O casal Ana Chalub, jornalista, e Luiz Bragança, músico, inspirou-se no filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho. Ana se fantasiou de Dona Sebastiana, personagem do filme, enquanto Luiz apostou na irreverente figura de um orelhão, ícone das ruas de décadas passadas.

“O carnaval é o espaço de tempo para a gente tentar outras possiblidades e fazer algo que não está no nosso dia a dia. É o momento de celebrar a nossa cultura, nossa música”, celebrou Bragança.

A sonoridade contagiante da Orquestra Camaleônica

Sob as árvores, a Orquestra Camaleônica dita o ritmo do Calango Careta com sua fanfarra. Trompetes, trombones, saxofones e uma percussão potente embalam os foliões com ciranda, frevo, maracatu e sucessos da MPB. Canções como “Lucro”, do BaianaSystem, e “Frevo Mulher”, de Zé Ramalho, ecoam entre a multidão, que interage de perto com os músicos, sem a necessidade de cordas ou abadás.

A estudante Mariana Junqueira Marini, 15 anos, fantasiada de personagem de “Backyardigans”, compartilha a alegria de curtir o carnaval com amigas. “Minha mãe sempre me levou para o carnaval, mas eu não curtia muito. Agora, gosto mais porque venho com minhas amigas.”

Folia para todas as idades

O Calango Careta se destaca por ser um espaço de inclusão, reunindo crianças, jovens e idosos. A fisioterapeuta Gabriela Barcellos, grávida de 8 meses, planeja criar o filho curtindo o carnaval, ao lado da enteada, que se diverte com confetes e espuma.

Mara Carvalho, aposentada de 75 anos, é frequentadora assídua do bloco há anos e faz questão de levar a família para perpetuar a tradição. “Desde pequenininha, eu gosto muito de carnaval. Minha mãe, minha irmã, meu irmão, todo mundo brincava”, conta.

A folia de dona Mara não para no Calango Careta; ela promete emendar com o bloco Pacotão, conhecido por sua sátira política.

Tradição e legado do Calango Careta

Desde 2015, o Calango Careta mantém a expectativa sobre seu trajeto, divulgando o local de saída horas antes do cortejo. O bloco transcendeu a folia e inspirou fábulas escolares locais, como “A Fábula do Calango Careta ou a Folia de Mil Dias”, utilizada para ensinar sobre cultura popular, pertencimento e ocupação pública.

Na sexta-feira (20), o Cine Brasília exibirá o documentário “Calango Careta: 10 Anos de Eterno Carnaval”, que narra a trajetória do grupo e sua importância como um dos ícones da cidade, mostrando como uma brincadeira se tornou um movimento e uma tradição.

Com informações da Agência Brasil