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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Economista renomada aponta retorno de investimento em carnaval superior à indústria tradicional

A economista Mariana Mazzucato, autora de “O Estado Empreendedor”, defende que o investimento em artes e cultura, exemplificado pelo Carnaval brasileiro, gera um retorno econômico superior ao de setores industriais tradicionais. Durante sua visita ao Brasil, Mazzucato enfatizou o impacto social, de bem-estar e de saúde mental que a festa popular proporciona a diversas comunidades.

Carnaval como plataforma da economia criativa

Mazzucato visitou Rio de Janeiro e Salvador para analisar a economia por trás do Carnaval, com planos de estender sua pesquisa a Recife. A economista lidera um estudo na University College London (UCL), em cooperação com a UNESCO, que investiga o papel das artes e da cultura no desenvolvimento econômico.

Em Brasília, ela defendeu que o Carnaval sirva como centro de uma plataforma para expandir a economia criativa no Brasil. Este modelo de negócios baseia-se em capital intelectual, cultural e criatividade para gerar emprego e renda. A economista questionou a alegação de “falta de dinheiro” para investimentos em cultura, ressaltando sua contribuição para a redução da criminalidade e alertando para os riscos de concentração de renda.

“Devemos sempre lembrar que existem relações de poder. Quem tem acesso [ao Carnaval]? Está se tornando muito comercial? Para onde vai o dinheiro? Os patrocínios, por exemplo, estão sendo reinvestidos nas comunidades e no ecossistema que cria essa incrível criatividade?”, questionou Mazzucato.

A parceria com o Ministério da Cultura visa elaborar indicadores econômicos para auxiliar o governo na formulação de políticas públicas que impulsionem a economia em torno do Carnaval, da cultura e das artes.

Retorno financeiro e social subestimados

Em entrevista exclusiva à Agência Brasil, Mazzucato afirmou que “para cada real investido, o retorno para a economia como um todo é maior do que na indústria automobilística”. Ela ressaltou que, globalmente, o investimento público em artes e cultura contribui mais para a economia do que grande parte da indústria manufatureira tradicional, apesar dos governos continuarem priorizando setores menos rentáveis.

A economista comparou os investimentos em cultura com os destinados a guerras e defesa, onde “o dinheiro surge do nada”. Ela criticou a narrativa de “não há dinheiro” aplicada à educação, saúde e cultura, defendendo que metas estratégicas e ousadas, que exigem investimento em diversas áreas, podem catalisar a capacidade produtiva da economia e aumentar o PIB.

Cultura como ferramenta de segurança e inclusão

Mazzucato destacou o papel das artes e da cultura na diminuição da criminalidade, especialmente entre jovens marginalizados. “Investir em artes, cultura e na economia criativa é uma forma de diminuir a criminalidade”, afirmou, citando evidências de benefícios sociais e de bem-estar em nível comunitário.

Questionada sobre o papel do Estado, ela apontou que “essas mesmas pessoas, que reclamam do desperdício, não reclamam dos enormes subsídios concedidos ao agronegócio ou a outros setores”. Mazzucato defendeu que a questão não é se o Estado deve investir em cultura, mas sim como deve fazê-lo, ressaltando que investimentos públicos são cruciais para atrair o setor privado.

Oportunidades e desafios para o Carnaval

O Carnaval brasileiro, que gera mais de US$ 2 bilhões em receita, é visto por Mazzucato como um “microcosmo” de atividades artísticas e culturais. Ela alertou para a necessidade de garantir que os patrocínios sejam reinvestidos nas comunidades e no ecossistema criativo, e que a festa não se torne excessivamente comercial.

“Eu venho da região da Itália perto de Veneza, em Pádua, e temos o nosso próprio Carnaval, mas não está enraizado no território, não é algo para o qual os jovens são preparados para participar. É uma espécie de carnaval morto, se posso dizer. Aqui, vocês têm um carnaval vivo. Acho que vocês devem pensar nisso como um investimento a longo prazo, no centro de uma economia criativa”, concluiu.

Com informações da Agência Brasil