25.4 C
Manaus
sexta-feira, 24 de julho de 2026

Orquestra de Câmara da USP celebra diversidade musical em pré-temporada

A Orquestra de Câmara da USP (OCAM) inicia sua pré-temporada com uma série de concertos que celebram a pluralidade musical. Os espetáculos prometem explorar um repertório vasto, que transita entre obras clássicas europeias, composições afro-brasileiras e tributos a importantes nomes da música brasileira.

Concertos com sotaques diversos

Nos concertos dedicados a sopros e percussão, sob a regência de André Bachur, a OCAM receberá a multi-artista Jéssica Gaspar. Ela apresentará a canção “Deus é uma Mulher Preta”, de sua autoria, que ganhou notoriedade como enredo do Bloco Ókánbí no Carnaval de Salvador em 2020. A performance de Gaspar mergulha na música afro-brasileira, abordando vivências e dores da população negra.

“Eu fiz essa música sem nenhuma pretensão de desenhar a ideia de Deus, mas de ressignificar o corpo de uma mulher chamada Cláudia Ferreira da Silva, que foi arrastada pela polícia do Rio de Janeiro e teve seu corpo dilacerado e filmado. Eu achei devastador a imagem dela ser lembrada nesse lugar [de violência]. Então pensei: por que não associar o corpo de uma mulher negra à figura do divino?”, explicou a artista.

Outro ponto alto da programação será a homenagem a Hermeto Pascoal, ícone da música popular brasileira e referência do gênero swing. A obra “Bruxo Campeão”, composta por Carlos dos Santos, ex-aluno da OCAM e professor na Universidade Federal da Paraíba, terá sua estreia. Já o grupo de cordas, sob a regência de Claudia Feres, interpretará obras de Aaron Copland e Benjamin Britten, com destaque para “Danças Sacra e Profana para Harpa e Cordas” (1904), de Claude Debussy, com orquestração da harpista Liúba Klevtsova.

O grupo Ensemble apresentará o programa “Mosaico Contemporâneo”, com curadoria e regência de Ricardo Bologna. O concerto incluirá uma homenagem a Olivier Toni, compositor e fundador da OCAM, com a execução do “Improviso para Violoncelo Solo” (2010). O repertório também se aventura por composições japonesas, como “Kojo No Tsuki” (A Lua Sobre o Castelo em Ruínas) (1901) e “Três Baladas para Hida” (1977), com arranjo de Yuri Behr.

Expansão do repertório musical

A pré-temporada da OCAM reflete uma mudança significativa no cenário musical acadêmico brasileiro. Segundo o maestro Ricardo Bologna, professor do departamento de música da ECA-USP, o espaço para sons de origem latina, africana e asiática era, historicamente, restrito.

“Há 30 anos, a pesquisa acadêmica de música no Brasil era, quase sempre, restrita ao estudo da música europeia ou norte-americana”, afirma Bologna. Ele ressalta que o panorama atual é mais promissor, com um aumento na produção de artigos e a realização de congressos que discutem a diversidade na música nacional, incluindo gêneros folclóricos e populares.

Jéssica Gaspar complementa que a inclusão de mestres nessas novas linhas de pesquisa tem sido fundamental para essa inovação. “A inovação está sendo esse movimento de convite para mestres que sabem toda a arquitetura da música, toda a engenharia da sua poesia e que trazem suas próprias palavras. Também é resultado da entrada de corpos [não-brancos] nas universidades.”

Apesar dos avanços, Gaspar critica a categorização da música não europeia em um “espaço étnico” dentro das graduações, que ainda priorizam o estudo dos clássicos. “Essa ideia do clássico engessa toda uma célula, um povo, uma linguagem. O que é clássico agora?”, questiona, sugerindo a necessidade de repensar bibliografias e currículos para acolher a diversidade musical.

Com informações da Agência Brasil