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domingo, 19 de julho de 2026

Aquecimento do Atlântico potencializa eventos climáticos extremos no Brasil, alertam especialistas

O aquecimento contínuo da superfície do Oceano Atlântico tem alterado o regime de chuvas no Brasil, intensificando eventos climáticos extremos. Chuvas torrenciais recentes no litoral paulista e em Minas Gerais são exemplos das consequências desse fenômeno, que também contribui para a ocorrência de secas em outras áreas do país.

Oceano mais quente, atmosfera mais úmida

Segundo Marcelo Seluchi, meteorologista do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o aquecimento das águas do Atlântico faz parte de uma tendência global. Esse aquecimento eleva a taxa de evaporação, lançando grandes volumes de vapor de água na atmosfera.

“E aí temos um problema duplo. Porque, devido ao aquecimento global, a atmosfera também está mais quente, e acaba por transformar em chuvas extremas toda a umidade que os ventos, e principalmente as frentes frias, trazem do oceano”, explica Seluchi.

Em alguns pontos da costa brasileira, a temperatura média das águas oceânicas chegou a ficar 3°C acima da média histórica recente. Embora esse aumento possa ser de curto prazo e influenciado por correntes marítimas, o tamanho da área afetada é o ponto crítico. Quanto maior a “mancha de calor oceânico”, maior a quantidade de umidade liberada na atmosfera.

“Quando temos massas de ar vindas do oceano, especialmente as frentes frias que percorrem muitos quilômetros, o aporte de umidade é muito maior. Consequentemente, em combinação com a atmosfera mais úmida, aumentam as chances de ocorrerem chuvas mais volumosas”, afirma Seluchi.

Dados e estudos reforçam o alerta

Dados de monitoramento, incluindo registros de satélite da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa), indicam uma aceleração no aquecimento dos oceanos nas últimas décadas. Um estudo publicado na revista Advances in Atmospheric Sciences aponta que o aquecimento global dos oceanos atingiu um novo recorde em 2025 devido ao aumento das concentrações de gases de efeito estufa.

Ilana Wainer, doutora em meteorologia e professora do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP), corrobora que diversas fontes sérias indicam o aquecimento do planeta e dos oceanos desde 1850, com aceleração notável a partir da década de 1980.

Wainer explica que esse aquecimento pode gerar ondas de calor marinho localizadas e temporárias. Embora ainda sejam um tema de estudo, essas ondas, em conjunto com outros fatores, podem intensificar eventos climáticos extremos, tornando chuvas intensas ainda mais severas.

Distribuição irregular das chuvas e degradação ambiental

Apesar de algumas regiões enfrentarem chuvas torrenciais, outras sofrem com a estiagem. Essa distribuição irregular das chuvas é parcialmente explicada pela degradação ambiental, segundo Seluchi.

“Estamos vendo muitas chuvas em algumas regiões do Brasil, mas em termos gerais, está chovendo menos [do que habitualmente, em outras regiões]. Isso está acontecendo porque a umidade não vem só dos oceanos. Vem também da Amazônia, do interior do país, de regiões hoje desmatadas”, detalha o meteorologista.

Ele se refere aos “rios voadores”, fluxos de vapor originados na Floresta Amazônica e transportados pela atmosfera. A substituição da vegetação nativa por pastagens reduz a evaporação do solo, impactando a formação desses fluxos de umidade.

“Quando suprimos a vegetação nativa por áreas de pastagem, esse solo evapora menos. E disso decorre essa enorme irregularidade [na distribuição das chuvas]. Porque, dependendo da direção de onde os ventos estão soprando, podemos estar com uma fonte de umidade degradada, e aí se estabelece um círculo vicioso no qual chove pouco porque o solo está seco e o solo está seco porque chove pouco”, concluiu Seluchi.

Com Informações da Agência Brasil